sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

The Brazilian Big Band


Um dia, andando pela Ventura Boulevard, (Los Angeles), estava pensando para variar, como sair da dureza, como arranjar trabalho, pois estava completamente duro e para variar também com mulher, crianças em casa. De repente passei por um local (que agora não me lembro o nome) e vi um grande anúncio que dizia: "Todas as terças feiras a noite das Big Bands", e com nomes "fortíssimos" de orquestras de arranjadores super renomados e conceituados no meio artístico americano. Entrei, e perguntei quem era o responsável pela contratação das orquestras. Apareceu uma "dona", simpática e perguntou o que eu desejava. Disse que era um pianista brasileiro e que tinha uma Big Band que tocava música brasileira, samba, bossa nova, etc... A "dona" ficou super entusiasmada e marcou uma data para mim para dali a uns dois meses.

Saí de lá tonto, pois era tudo mentira. Não tinha Big Band nenhuma, nenhum arranjo e nem conhecia os músicos de orquestra na cidade. Foi então que consegui um trabalho para tocar num tipo de festa de Carnaval em Phoenix, Arizona, após a corrida de rua de Fórmula Indy. Alí conheci um trombonista, espetacular, o Bruce Fowler, e de madrugada contei o meu dilema, e ele me disse que era o responsável por grande parte das arregimentações para trilhas de filmes nos melhores estúdios de L.A., que conhecia os melhores músicos de orquestra, que a mulher dele era copista, etc... e que topava montar a orquestra para mim, desde que fosse primeiro a minha casa e eu mostrasse ao piano um pouco do que eu queria escrever, para ter certeza de que eu era bom mesmo na "pena", para ver se valia a pena mesmo ele entrar nessa. Foi lá conferir e achou tudo uma beleza, e disse que era só eu escrever os arranjos que ele cuidava do resto.

Aí começou a segunda parte do "drama". Comprar papel de música, lapis, borracha, apontador, etc... (naquele tempo ainda era tudo "na mão", não tinha softwares para escrever música em computadores). Comecei a escrever. Alguns dias depois, varando noites as voltas com os arranjos, me dei conta de que não conseguiria escrever a quantidade de arranjos necessários (uns 15) para fazer 2 sets na data marcada.

Foi aí que fui a casa do meu amigo maestro Moacir Santos, expliquei a furada que tinha entrado, e sugeri a ele que na noite eu fizesse uma homenagem a ele, e ele apareceria regendo a orquestra e levaria uns 5 arranjos para me aliviar da trabalheira. Ele ficou entusiasmado e topou. Aproveitei e fiz a ele uma pergunta, (pois já tinha escrito arranjos em S.P. e era muito limitado, na questão de "range" dos instrumentos. No Brasil as orquestras eram limitadas, os primeiro trumpetistas só chegavam até certo ponto, os trombonistas baixo também, e os acordes tinham que ser meio quadrados, senão ficava tudo desafinado. Então com isso em mente, perguntei ao Maestro: "Moacir, aqui pode tudo?" Ele respondeu, "Tudo". Eu, "Tudo mesmo?" Ele, "Tudo".

Voltei animado para casa e continuei a escrever. Pensei, orquestra Brasileira tem que ter pandeiro, e crooner (em algumas músicas). Liguei para o Airto Moreira e o convidei para tocar pandeiro na orquestra. Só pandeiro, sentadinho lá na estante dele sem firulas. Ele adorou a idéia, mas impôs uma condição: queria cantar uma música. Eu falei, Pô Airto, você não é cantor, ele ficou bravo e disse que na terra natal dele tinha ganho até premios cantando imitando o Jorge Veiga. Tudo bem. Escrevi o "Foi a noite" para ele, do Jobim e da Dolores Duran. A Flora (Purim) mulher dele ficou com ciúmes e disse que queria cantar umas duas também. Tudo bem. Escrevi para ela o "Rapaz de Bem" do Johnny Alf e o "Quem quizer encontrar o amor" do Geraldo Vandré.

Na parte instrumental, escrevi algumas composições minhas e outras, como "Feitio de Oração" do Noel Rosa.

Começaram os ensaios. Os músicos eram pra lá de excelentes, super competentes, leitura a primeira vista, afinação, timbre, pressão, enfim o supra sumo. Todos os 5 saxofonistas (a banda eram 4 trumpetes, 4 trombones, 5 saxofones e um clarinete) tocavam também todas as flautas, de piccolo a flauta em Sol, e também clarinete se precisasse e clarone (que eu adoro e colocava em alguns arranjos.) Mas vieram com um papo furado, de que eu escrevia em dois por quatro, e que deveria escrever em dois por dois, pois eles estavam mais acostumados, era mais fácil, que trabalhavam com os melhores e maiores arranjadores do mundo e que todos escreviam em dois por dois. Foi aí que eu mostrei quem eu era.

Meio na base da brincadeira, chamei todos de viados, disse que tinha ido parar alí pois no Brasil diziam que alí é que tinham os melhores músicos do mundo, os únicos capazes de tudo, e agora eles vinham com essa frescura? Disse a eles: "Eu não sou maestro porra nenhuma, apenas escrevo, vocês têm que me ensinar a reger, não sou viado pra ficar com mãozinha balançando na frente de vocês para vocês saberem onde têm que entrar e sair, etc... eu quero tocar piano, ou ficar no bar ouvindo minha orquestra tocar sozinha. Se virem. Agora, eu vou ensinar rapidamente a vocês o que vocês não sabem. Tocar samba, e saber interpretar em dois por quatro, coisas que vocês realmente não sabem. Ficaram meio cabreiros, mas riram bastante com o meu jeito de falar e meu total desprendimento, e também respeito por eles. Mas sentiram logo que teriam que me respeitar também no mesmo nível.

Logo, me apelidaram do "Wild Maestro", (o Maestro Selvagem). Fizemos mais alguns ensaios e eles aprenderam a tocar samba e dois por quatro, ficaram alegrissimos e orgulhosos com isso e começaram a me "adorar". Papos, drinks, etc...

Na dita noite de estréia, a platéia dava voltas no quarteirão, pois nunca tinham visto uma Brazilian Big Band, e com o apoio da Flora, do Airto, do Moacir, o nome dos músicos participantes etc... Batemos o record de bilheteria da casa. Estavam todos os melhores e maiores arranjadores e Maestros do pedaço para me checar. Fizemos os 2 sets e arrazamos. Críticas nos jornais, a platéia extasiada, os músicos todos sorridentes, enfim foi um sucesso, e ficamos então por alguns anos nos apresentando por alí (mas aí já sem o Moacir, o Airto e a Flora) e em outros locais com enorme aceitação do público.

Só não consegui contrato para gravar um disco com a Orquestra. Mas meu compadre, o "China", bancou uma sessão de gravação para eu poder pelo menos ter um registro da Orquestra e gravamos 3 faixas. Na base do "vamo lá".

Qdo vim de L.A. para o Brasil, deixei muita, mas muita coisa minha mesmo por lá, na casa de meu filho e por lá estão. Nunca tive "saco" de mexer naquilo tudo e trazer para cá, apesar de ir a L.A. sempre que posso.

Outro dia, mexendo em algumas caixas que trouxe de lá mas nunca mexo nelas, achei um tape com uma das faixas que gravamos "naquela" sessão. Fiquei empolgado e transferi para CD. É uma faixa só, sem solos de sopro, pois o tempo era curto, então só eu fiz um "solinho".

Segue então, o "Samba do Brilho", interpretado pela "Guilherme Vergueiro Brazilian Big Band".
Espero que gostem.
A ilustração acima é do meu filho Nicolau Vergueiro, artista plástico ainda radicado em L.A.




2 comentários:

lodin disse...

Oi Guilherme. Que legal que vc deixou registrado o som da big band, tocando o Samba do Brilho. Sabia da existencia da banda mas nunca tinha ouvido nada. Está muito legal. Parabéns, e quem sabe vc consegue formar uma aqui no Rio? Abs, Haroldo

Thiago Alves disse...

Guilherme, muito legal essa história! Precisamos fazer um som!!! Abraço